sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

TEORIAS E PROCEDIMENTO DO MAGNETISMO


TEORIAS E PROCEDIMENTO DO MAGNETISMO

Autor: Hector Durville
Teorias e procedimento do magnetismo
Rio de Janeiro: CELD, 2012.
Tradução Albertina Escudeiro Sêco.


Iniciaremos agora uma série de resenhas do livro de Hector Durville: Teorias e Procedimentos do Magnetismo.   É um livro de leitura agradável, com valor histórico inestimável. Trata-se de um compêndio feito médico psiquiatra considerado como o continuador do Barão du Potet que, entre suas grandes realizações, fundou a Universidade de Estudos Avançados, cuja faculdade de Ciência Espírita era dirigida por Gabriel Dellane.

Ação da mão

O texto de Durville começa com um ponto importante, mas, em minha opinião, não esclarecido de forma satisfatória: o poder das mãos no magnetismo animal. Obviamente essa carência de explicação mais profunda não é exclusividade do autor. O poder das mãos é sempre dado como certo via narração histórica, empiria, não fundamentado em teoria explicativa.
Durville faz as seguintes afirmações: 

1) A mão é [...] o orgão de precisão por excelência.
2) ...o principal órgão que nos serve para levar aos nossos semelhantes a força magnética...
3) Desde a imposição de mãos, utilizada pelos egípcios, pelo Cristo e pelos apóstolos, para realizar as curas ditas miraculosas que a tradição nos fez conhecer, até os toques e as fricções dos tocadores e curadores profanos, sempre é a mão que age. Alguns autores têm-lhe atribuído propriedades especiais, medicinais entre outras.”

Durville cita os autores: Homero diz que existem homens com “mão medicinal”; Plínio descreve homens que “tinham o dom de curar, pelo tato, as mordidas das serpentes e de fazer sair todo o veneno do corpo, nele aplicando somente a mão” (p. 21-23).

Definição do Magnetismo; etimologia da palavra

Durville define o magnetismo da seguinte forma: “a ação recíproca que os corpos exercem ou podem exercer uns sobre os outros” (p. 23).
Vale a pena lermos o trecho de Durville sobre a etimologia dos termos relacionados à ciência magnética:

A palavra imã (em francês aimant) parece ter analogia com a palavra amar (em francês aimer), por causa da relação que existe entre o poder de atração física inerente da primeira (imã) e a ideia de simpatia ou atração moral ligada à segunda (amor). É isso, sem dúvida, o que pensam os chineses que designam o imã sob o nome de tsu-chy, quer dizer, o que ama.
Os gregos, que descobriram a pedra de imã nas cercanias da cidade de Magnésia, na Ásia  Menor,  deram-lhe o nome do lugar de origem magnes que em latim tornou-se magneticus. Quase todos os etimologistas estão de acordo em relacionar a raiz magnes à origem da nossa palavra magnetismo. [...]
Sempre se observou no corpo humano certas propriedades que estão em analogia com as do imã; e, no século XVI, deu-se, igualmente, ao conjunto dessas propriedades, o nome demagnetismo. É o magnetismo animal de Mesmer, o magnetismo vital ou o magnetismo humano dos magnetizadores contemporâneos (p. 24).

Para o autor o imã possui duas formas de magnetismo que podem ser estudadas separadamente. Uma é o magnetismo da Física, o outro seria “um agente fisiológico, vital, tendo as maiores analogias com o magnetismo humano”. Existente em todos os corpos inanimados, o magnetismo “é gerado pela eletricidade, calor, movimento, atrito, som e decomposições químicas”. Ao emanar de um corpo humano, o magnetismo “participa até das qualidades físicas e morais dos indivíduos” (p. 25).
Durville propõe que a medicina magnética seja a medicina da família, isto é,

a medicina do pobre como a do rico; cada um pode empregá-la, sem nenhuma despesa, em si mesmo e nos seus, visto que as forças da Natureza pertencem a todos. As regras da sua aplicação são simples e estão ao alcance de todas as inteligências. Com alguns conhecimentos fáceis de adquirir, toda pessoa cuja saúde está mais ou menos equilibrada pode curar ou aliviar o sofrimento do seu semelhante, sem recorrer aos venenos da medicina clássica que tantas vezes fazem mal, mesmo curando. Na grande maioria dos casos, o homem pode ser o médico de sua mulher, e esta a médica de seu marido e de seus filhos. (pp. 26-27)

Toda pessoa pode magnetizar

Durville diz que alguns iniciantes podem curar melhor do que alguns magnetizadores profissionais, dependendo do caso. Também afirma que alguns magnetizadores podem enfraquecer o doente ao invés de curá-lo, citando um estranhíssimo caso de um homem que acabava por matar suas esposas sem perceber, através de seu fluido pernicioso (p.28).
Outra interessante afirmação do autor é sobre os sexos e o magnetismo:
o homem cura mais facilmente a mulher, e esta cura melhor um homem que uma mulher, por que a atração que se exerce de um sexo ao outro é maior, mais viva, mais natural. É em virtude dessa lei da Natureza que o homem pode e deve ser o verdadeiro médico de sua mulher, e esta a melhor médica de seu marido, com a condição, bem entendida, de que eles sejam unidos por uma profunda simpatia.

Quais são aqueles que magnetizam melhor?

Para o autor, responder essa questão envolve a observação do trabalho de cada magnetizador. O poder de curar é uma espécie de dom que se manifesta de forma desigual entre as pessoas.

Encerrando o capítulo, ele escreve sobre sua própria experiência inicial com o magnetismo, quando teria descoberto sua vocação e, após estudos demorados, teria elaborado sua teoria e estabelecido uma clientela.


CRISTIANISMO PRIMITIVO E DOUTRINA ESPÍRITA

“As raposas têm tocas e as aves dos céus, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Mt., 8:20.)

SEVERINO CELESTINO DA SILVA

Todas as correntes religiosas cristãs se qualificam como seguidoras dos princípios morais e dos ensinamentos implantados por Jesus. No entanto, a maioria de seus adeptos não se dá ao trabalho de conhecer os outros princípios religiosos que buscam Jesus. Assim, recebem as informações incompletas, preconceituosas e destorcidas, ensinadas pelos diversos dirigentes e responsáveis por suas religiões.No que concerne ao Espiritismo, boa parte dos seus adeptos, embora aceitando os princípios da Doutrina e acompanhando a sua literatura, principalmente a de origem mediúnica, não se dedica ao estudo sistemático das obras básicas da Codificação e as que lhe são complementares e subsidiárias. O preconceito é a ausência de conceito, por isso o Mestre nos orienta, em João, 8:32, que busquemos a verdade, pois só assim nos libertaremos.

Ao refletirmos sobre o conteúdo do capítulo 8, versículo 20 do evangelho de Mateus, citado acima, encontramos motivos para um balanço reflexivo ao longo da história. Este balanço passa pela avaliação do que Jesus realmente pregou e do que se tem praticado, em seu nome, ao longo desses dois mil anos.
Jesus demonstra neste versículo como deveriam ser os seus seguidores: tomar como ensino fundamental que o reino dele não é deste mundo e ter, antes de tudo, desprendimento e desinteresse total por tudo o que é efêmero, principalmente os bens materiais.
Jesus não fundou igrejas ou nenhum outro tipo de edificação com finalidade de prática  religiosa.

A sua religião foi o amor caracterizado na simplicidade dos profundos ensinamentos, no atendimento e assistência ao necessitado em qualquer lugar.
Segundo Mateus, “Jesus percorria toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo.
A sua fama espalhou-se por toda a Síria, de modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoninhados, lunáticos e paralíticos. E Ele os curava”. (Mt., 4:23 e 24.)

Observemos a sua maneira de assistir e ajudar os sofredores e comparemos com o que raticam hoje, aqueles que se intitulam seus  seguidores. Será que estão seguindo e praticando realmente as obras de Jesus? Podemos descobrir, sem muita dificuldade, o quanto se encontram distantes do ensino do Mestre. O que chamam de religião é algo destoado ao longo da história pela imposição de dogmas e conceitos que não sintonizam com a mensagem do Evangelho do Mestre.
Muitas correntes religiosas costumam afirmar que a Doutrina Espírita não é uma religião.Sabemos que no aspecto característico constitucional, a Doutrina Espírita possui tríplice aspecto: filosófico, científico e religioso.

Por isso, o Espiritismo não é uma religião constituída nos moldes da maioria das religiões  dogmáticas e ritualistas tradicionais.
O seu aspecto religioso não possui hierarquia nem dogmas. Não possui rituais nem sacerdotes, nem pastores, nem dízimos, nem sacrifícios de animais, nem despachos, nem andores, nem cromoterapia, nem amuletos, nem queima de incensos, nem velas ou qualquer outro tipo de simpatia ou ritual.

O Espiritismo adota em sua totalidade os ensinamentos de Jesus buscando-os em sua essência e unindo-os ao “Fora da caridade não há salvação”, preconizado por Allan Kardec.
Quando analisamos as recomendações de Jesus, o Cristo, no evangelho de Mateus, capítulo 25 versículos 34 a 36, sobre o “Juízo Final”, verificamos o quanto estes ensinamentos são compatíveis com a Doutrina Espírita. “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo.
Pois tive fome e me destes de  comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes.

Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes me ver.” Esta é a grande receita de Jesus para os que querem segui-lo praticando os seus ensinamentos. A Doutrina Espírita está perfeitamente sintonizada com estes conceitos e orientações de Jesus na sua conduta de assistência aos necessitados do caminho. Através de suas creches, hospitais, sanatórios, asilos, abrigos, distribuição de enxovais e gêneros alimentícios, busca o Espiritismo a execução destas recomendações de Jesus.
As orientações feitas por Ele quando da escolha dos seus discípulos traz o verdadeiro roteiro a ser seguido: “Curai os doentes, purificai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai. Não leveis ouro, nem prata, nem cobre nos vossos cintos, nem alforjes para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado, pois o operário é digno do seu salário”. (Mt., 10:8-10.)

Estes versículos representam a base do Cristianismo nascente. A essência prática e o entendimento destes princípios parecem esquecidos nas estradas do tempo. A Doutrina Espírita chega ao século XIX com o objetivo de ressuscitar estes conceitos de Jesus e lembrar o que Ele deixou como roteiro para a prática do seu Evangelho. Está o Espiritismo lado a lado com estes ensinamentos e solicita dos cristãos, de todas as correntes religiosas, que se voltem para o resgate da mensagem original de Jesus.

A receita é pura, simples, cristalina e autêntica. Sem véus nem subterfúgios. Pois que Jesus deu o maior exemplo nascendo em uma manjedoura e tendo como leito de morte uma cruz, além de não ter, durante sua passagem entre nós, onde reclinar a cabeça.
Tudo que praticou foi de forma singela, simples e amorosa. Chorou sobre Jerusalém por não poder juntar os seus filhos e deixou para nós a responsabilidade de nos unirmos e praticar os seus preceitos em essência e espiritualidade.

A Doutrina Espírita chega e nos traz de volta a condição para ressuscitarmos a mensagem de Jesus.
Trabalhemos, pois, com ela e busquemos o resgate e a conquista do retorno à cristalinidade da mensagem vivida por todos os que praticavam o Cristianismo Primitivo.
Sê conosco Jesus!

Revista Reformador / Março, 2007 / N o 2.136

RESGATANDO O PASSADO

Raimundo Eliseu Filho,
magnetizador do
Centro Espírita
Camille Flammarion em
Fortaleza-CE

professoreliseufilho@ig.com.br


A origem do termo “passe” e das suas “técnicas”

A aplicação de “passes” nas Casas Espíritas é uma prática bastante difundida atualmente. O trabalhador espírita dedicado a esta tarefa, ou seja, o “passista”, faz uso de técnicas como a imposição de mãos, passes longitudinais, passes transversais e esporadicamente o perpendicular. Mas será que a origem de tais técnicas é conhecida por eles? E quantos saberiam dizer de onde vem o termo “passe”?

A resposta para tais questionamentos só foi possível com a tradução do livro “Teorias e Procedimentos do Magnetismo”, de Hector Durville, através do Centro Espírita Léon Denis no estado do Rio de Janeiro. Nesse livro, o autor descreve como os principais magnetizadores dos séculos XVIII e XIX, a citar: Mesmer, Deleuze, Marquês de Puysegur, Barão Du Potet, Charles Lafontaine, além do próprio Durville, tratavam seus pacientes. Dentre estes, o francês Joseph Philipe François Deleuze interessava-se muito pelas técnicas de magnetização de seus predecessores; ele assim descreve o que hoje se chama passe transversal:
(...) fareis diante do rosto e mesmo diante do peito alguns passes atravessados, numa distância de três ou quatro polegadas. Esses passes se fazem apresentando as duas mãos aproximadas e afastando-as bruscamente uma da outra, como para retirar a superabundância do fluido do qual o doente poderia estar carregado. (p. 89)

Sobre o passe longitudinal, Deleuze ensina que:

Esta maneira de magnetizar pelos passes longitudinais dirigindo o fluido da cabeça às extremidades, sem se fixar sobre nenhuma parte de preferência às outras, chama-se magnetizar em grandes correntes. (p. 90)

Para finalizar um tratamento magnético Deleuze sugeria o que, atualmente, seriam os passes perpendiculares:
 Existe enfim, um procedimento pelo qual é muito vantajoso terminar a sessão. Ele consiste em colocar-se ao lado do doente, que se mantém levantado, e fazer, a um pé de distância e com as duas mãos, das quais uma está diante do corpo e a outra atrás das costas, sete ou oito passes, começando acima da cabeça e descendo até ao chão ao longo do qual se afastam as mãos. Este procedimento alivia a cabeça, restabelece o equilíbrio e dá forças. (p. 90)

Todas essas descrições foram originalmente feitas no livro “Instrução Prática sobre o Magnetismo Animal” de Deleuze, escrito em 1853, antes, portanto, do surgimento do próprio Espiritismo.
Depreende-se, então, que a prática empregada na maioria e porque não dizer, em todos os Centros Espíritas do Brasil, é herança da dedicação, pesquisa, estudo e trabalho de magnetizadores como Deleuze e os demais supra-citados.

E para não restar dúvidas de que o primeiro a usar o termo “passe” foi François Deleuze, Hector Durville escreve:

Até aqui toda a magnetização se resume no emprego do que ele (Deleuze) chama os passes, praticados seja à distância, seja por um ligeiro contato (...). (p. 90)

Fica claro, que “o passe”, amplamente usado pelos magnetizadores, é tão somente uma, dentre várias técnicas de magnetização, como a imposição de mãos e o sopro também o são.
Cabe nesse momento fazer uma reflexão:

Por qual(ais) motivo(s) uma expressão específica tomou, erroneamente, a representação de algo tão mais amplo, ou seja, do Magnetismo enquanto ciência?

Não se quer aqui, com este artigo, fazer um jogo de palavras ou confundir o leitor  (notadamente o espírita), mas sim, mostrar que tal falha de interpretação possivelmente contribuiu para a dissociação das duas ciências (Magnetismo e o Espiritismo) que, para Allan Kardec eram inseparáveis.□

JORNAL VÓRTICE ANO V, n.º 11 - abril - 2013

CURA DE UMA FRATURA PELA MAGNETIZAÇÃO ESPIRITUAL



CURA DE UMA FRATURA PELA MAGNETIZAÇÃO ESPIRITUAL

Nossos leitores se lembram, sem dúvida, do caso de cura quase instantânea de uma entorse, operada pelo Espírito do doutor Demeure, poucos dias depois de sua morte, e que relatamos na Revista do mês de março último, assim como o relato da cena tocante que teve lugar nessa ocasião. Esse excelente 

Espírito vem ainda assinalar sua boa vontade por uma cura mais maravilhosa ainda sobre a mesma pessoa. Eis o que se nos escreve de Montauban, em 14 de julho de 1865:
O Espírito do doutor Demeure vem de nos dar uma nova prova de sua solicitude e de seu profundo saber: eis em que ocasião.

Na manhã de 26 de maio último, a Senhora Maurel, nosso médium vidente e escrevente mecânico, teve uma queda infeliz e quebrando o antebraço, um pouco abaixo do cotovelo.

Essa fratura, complicada com distenções do punho e do cotovelo estava bem caracterizada pelo estalo dos ossos e o inchaço que lhe são os sinais mais certos.

Sob a impressão da primeira emoção produzida por esse acontecimento, os pais da Senhora Maurel foram procurar o primeiro médico encontrado, quando esta, retendo-os, tomou um lápis e escreveu medianimicamente com a mão esquerda: "Não vades procurar um médico; eu me encarrego disso. Demeure." Esperou-se, pois, com confiança. Segundo as indicações do Espírito, faixinhas e um aparelho foram imediatamente confeccionados e colocados. Uma magnetização espiritual foi em seguida praticada pelos bons Espíritos que ordenaram, provisoriamente, o repouso. Na noite do mesmo dia, alguns adeptos convocados pelos Espíritos se reuniram na casa da Senhora Maurel, que, adormecida por um médium magnetizador, não tardou em entrar em sonambulismo. O doutor Demeure continuou então o tratamento que não tinha senão esboçado de manhã, agindo mecanicamente sobre o braço fraturado. Já, sem outro recurso aparente que sua mão esquerda, nossa doente tinha tirado prontamente o primeiro aparelho, sendo mantidas somente as tirinhas, quando se viu esse membro tomar insensivelmente, sob a influência da atração magnética espiritual, diversas posições próprias para facilitar a redução da fratura. Parecia ser, então, o objeto de toques inteligentes, sobretudo no ponto onde deveria se efetuar a soldadura dos ossos; alongando-se em seguida sob a ação de trações longitudinais.

Depois de alguns instantes dessa magnetizações espiritual, a senhora Maurel só procedeu à consolidação das tirinhas e a uma nova aplicação do aparelho, consistente em duas tabuinhas se ligando entre si e ao braço por meio de uma correia. Tudo, pois, tinha se passado como se um cirurgião hábil tivesse operado ele mesmo visivelmente; e, coisa curiosa, ouvia-se durante o trabalho estas palavras que o aperto da dor, escapava da boca da paciente: "Não aperteis tão forte!... Vós me fazeis mal!..." Ela via o Espírito do doutor, e era a ele que se dirigia, suplicando para poupar sua sensibilidade. Era, pois, realmente um ser invisível para todos exceto para ela, e que lhe apertava o braço, servindo-se inconscientemente de sua própria mão esquerda.

Qual era o papel do médium magnetizador durante esse trabalho? Parecia inativo aos nossos olhos; sua mão direita, apoiada sobre a espádua da sonâmbula, contribuía com sua parte no fenômeno, pela emissão dos fluidos necessários à sua realização.

Na noite de 27 para 28, a Senhora Maurel, tendo desarranjado seu braço em conseqüência de uma falsa posição tomada durante seu sono, uma forte febre tinha se declarado, pela primeira vez; era urgente remediar esse estado de coisas. Reuniram-se, pois, de novo, em 28, e uma vez o sonambulismo declarado, a cadeia magnética foi formada, a convite dos bons Espíritos. Depois de vários passes e diversas manifestações, em tudo semelhantes às descritas mais acima, o braço foi recolocado em bom estado, não sem ter feito sentir a essa pobre senhora muitos sofrimentos cruéis. Apesar desse novo acidente, o membro já sentia o efeito salutar produzido pelas magnetizações anteriores; é o que prova o que segue, de resto. Desembaraçada momentaneamente de suas tirinhas, ela repousava sobre os cotovelos, quando, de repente, foi levantada alguns centímetros numa posição horizontal e dirigida docemente da esquerda para direita e reciprocamente; abaixou-se em seguida obliquamente e foi submetida a uma nova tração.

Depois os Espíritos se puseram a torcê-lo, a retorcê-lo em todos os sentidos e de tempo em tempo, fazendo movimentar jeitosamente as articulações do cotovelo e do punho. De tais movimentos automáticos impressos a um braço fraturado, inerte, sendo contrários a todas as leis conhecidas da gravidade e da mecânica, só à ação fluídica que se pode atribuir-lhe a causa. Se não fosse a certeza da existência dessa fratura, assim como os gritos dilacerantes dessa infeliz senhora, eu teria tido muita dificuldade, confesso-o, para admitir esse fato, um dos mais curiosos que a ciência possa registrar.

Posso, pois, dizer, com toda a sinceridade, que me sinto muito feliz por ter podido ser testemunha de um semelhante fenômeno.

Em 29,30,31 e dias seguintes, magnetizações espirituais sucessivas, acompanhadas de manipulações variadas de mil maneiras, levaram a uma melhora sensível ao estado geral de nossa doente; o braço tomava todos os dias novas forças. O dia 31, sobretudo, é de se assinalar, como marcando o primeiro passo feito para a convalescença. Nessa noite, dois Espíritos que se faziam notar pelo brilho de sua irradiação, assistiam nosso amigo Demeure; pareciam lhe dar conselhos, e este se apressava em pô-los em prática. Um deles mesmo se punha, de tempos em tempos, à obra, e, por sua doce influência, produzia sempre um alívio instantâneo. Pelo fim da noite, as tabuinhas foram, enfim, definitivamente abandonadas e as faixinhas ficaram sozinhas para sustentar o braço e mantê-lo numa posição determinada. Devo acrescentar que, além disso, o aparelho de suspensão vinha se juntar à solidez suficiente da bandagem. Assim, no sexto dia após o acidente, e apesar da deplorável recaída sobrevinda em 27, a fratura estava em um tal caminho de cura, que o emprego dos meios postos em uso pelos médicos durante trinta ou quarenta dias teria se tornado inútil. No dia 4 de junho, dia fixado pelos bons Espíritos para a redução definitiva dessa fratura complicada com distensões, se reuniram à noite. A senhora Maurel, apenas em sonambulismo, se pôs a desenrolar as faixinhas que envolviam ainda seu braço, imprimindo-lhe um movimento de rotação tão rápido que o olho tinha dificuldade em seguir os contornos da curva que descrevia. A partir desse momento, ela se servia de seu braço como de hábito; ela estava curada.

No fim da sessão, ocorreu uma cena tocante, que merece ser narrada aqui. Os bons Espíritos, em número de trinta, formavam no começo uma cadeia magnética paralelaàquela que nós mesmos formávamos. A senhora Maurel, estando colocada, pela mão direita, em comunicação direta sucessivamente com cada par de Espíritos, recebia, colocada como estava no interior das duas cadeias, a ação benfazeja de uma dupla corrente fluídica enérgica. Radiante de alegria, esperava com solicitude a ocasião para agradecer-lhes efusivamente pelo concurso poderoso que tinham prestado à sua cura. A seu turno, recebia deles encorajamentos para perseverar no bem.

 Isto terminado, ela tentou suas forças de mil modos; apresentando seu braço aos assistentes, fazendo-os tocar as cicatrizes da soldadura dos ossos; ela lhes apertava a mão com força, anunciando-lhes com alegria a sua cura operada pelos bons Espíritos. Em seu despertar, vendo-se livre em todos seus movimentos, ela desmaiou, dominada por sua profunda emoção!.... Quando se é testemunha de tais fatos, não se pode senão proclamá-los bem alto, porque merecem atrair a atenção das pessoas sérias.

Por que, pois, encontra-se, no mundo inteligente, tanta resistência para admitir a intervenção dos Espíritos sobre a matéria?

Porque se encontram pessoas que crêem na existência e na individualidade do Espírito, e que lhes recusam a possibilidade de se manifestarem, é porque não se dão conta das faculdades físicas do Espírito que se afigura imaterial de maneira absoluta. A experiência demonstra, ao contrário, que, por sua natureza própria, ele age diretamente sobre os fluidos imponderáveis, e, conseqüentemente, sobre os fluidos ponderáveis, e mesmo sobre os corpos tangíveis.

Como procede um magnetizador comum?

Suponhamos que queira agir sobre um braço, por exemplo: concentra sua ação sobre esse membro, e por um simples movimento de seus dedos, executado à distância e em todos os sentidos, agindo absolutamente como se o contato da mão fosse real, ele dirige uma corrente fluídica sobre o ponto desejado. O Espírito não age de outro modo; sua ação fluídica se transmite de perispírito a perispírito, e deste para o corpo material. O estado de sonambulismo facilita consideravelmente essa ação, em conseqüência do desligamento do perispírito, que se identifica melhor com a natureza fluídica do Espírito, e sofre então a influênciaespiritual elevada à sua maior força.

Toda a cidade está ocupada com essa cura obtida sem o concurso da ciência oficial e cada um disse a sua palavra. Uns pretenderam que o braço não tinha sido quebrado; mas a fratura tinha sido muito e devidamente constatada por numerosas testemunhas oculares, entre outras pelo doutor D... que visitou a doente durante o tratamento; outros disseram: "É muito surpreendente" e ficaram nisso; é inútil acrescentar que alguns afirmaram que a senhora Maurel tinha sido curada pelo diabo; se ela não tivesse estado nas mãos de profanos, teriam visto ali um milagre. Para os Espíritas, que se dão conta do fenômeno, nisso vêem muito simplesmente a ação de uma força natural desconhecida até nós, e que o Espiritismo veio revelar aos homens.

Notas. - Se há fatos espíritas que poderiam, até certo ponto, atribuir à imaginação, como os de visões, por exemplo, não poderia ocorrer o mesmo aqui; a senhora Maurel não sonhou que tinha quebrado o braço, não mais do que as numerosas pessoas que seguiram o tratamento; as dores que ela sentia não eram da alucinação; sua cura em oito dias não é uma ilusão, uma vez que se serve de seu braço. O fato brutal está aí, diante do qual é preciso necessariamente se inclinar. Ele confunde a ciência, é verdade, porque, no estado atual dos conhecimentos, parece impossível; mas não foi assim todas as vezes que se revelaram novas leis? É a rapidez da cura que vos espanta? Mas é que a medicina não descobriu muitos agentes muito mais ativos do que aqueles que ela conhecia para apressar certas curas? Não se encontrou nestes últimos tempos o meio de cicatrizar quase instantaneamente certas feridas? Não se encontrou aquele de ativar a vegetação e a frutificação?

Por que não haveria aquele para ativar a soldadura dos ossos? Conheceis, pois, todos os agentes da Natureza, e Deus não tem mais segredospara vós? Não é mais lógico negar hoje a possibilidade de uma cura rápida, do que não o foi, no século último, negar a possibilidade de fazer, em algumas horas, o caminho que se gastavam dez dias para percorrer? Esse meio, direi, não está no códice, é verdade; mas é que antes de que a vacina ali estivesse inscrita, seu inventor não foi tratado de louco? Os remédios homeopáticos não são, não mais, o que impede os médicos homeopatas se encontrarem por toda a parte e curar. De resto, como não se trata aqui de um preparado farmacêutico, é mais do que provável que esse meio não figurará por muito tempo na ciência oficial.

Mas, dir-se-á, se os médicos vierem exercer sua arte depois de sua morte, vão fazer concorrência aos médicos vivos; é muito possível; no entanto, que estes últimos se tranqüilizem se lhes tiram algumas práticas, não é para suplantá-los, mas para lhes provar que não estão inteiramente mortos, e oferecer o seu concurso desinteressado àqueles que quiserem bem aceitá-lo; para melhor fazê-los compreender, mostram-lhes que, em certas circunstâncias, pode-se passar sem eles. Sempre houve médicos, e assim o será sempre; somente aqueles que aproveitarem as novidades que lhe trazem os desencarnados, terão uma grande vantagem sobre aqueles que ficarão para trás. Os Espíritos vêm ajudar o desenvolvimento da ciência humana, e não suprimi-la. Na cura da senhora Maurel, um fato que surpreendeu talvez mais do que a rapidez da soldadura dos ossos, foi o movimento do braço fraturado que parecia contrário a todas as leis da dinâmica e da gravidade. Contrário ou não, o fato aí está; uma vez que existe, é que tem uma causa; uma vez que se renova, e que está submetida a uma lei; ora, é esta a lei que o Espiritismo vem nos dar a conhecer pelas propriedades dos fluidos perispirituais. Esse braço que, submetido somente às leis da gravidade, não poderia se levantar, supondo-o mergulhado num líquido de uma densidade muito maior do que o ar, todo fraturado que está, sendo sustentado por esse líquido que lhe diminui o peso, poderá se mover nele sem dificuldade, e mesmo ser levantado sem o menor esforço; é assim que, num banho, o braço que parece muito pesado fora da água parece muito leve na água. Ao líquido substitui um fluido gozando das mesmas propriedades e tereis o que se passa neste caso presente, fenômeno que repousa sobre o mesmo princípio que o das mesas e das pessoas que se mantêm no espaço sem ponto de apoio.

Este fluido é o fluido perispiritual que o Espírito dirige à sua vontade, e do qual modifica as propriedades unicamente pelo ato de sua vontade. Na circunstância presente, deve-se, pois, se representar o braço da senhora Maurel mergulhado num meio fluídico que produz o efeito do ar sobre os balões.

Alguém perguntou a esse respeito se, na cura dessa fratura, o Espírito do doutor Demeure tinha agido com ou sem o concurso da eletricidade e do calor. A isso respondemos que a cura foi produzida, naquele caso, como em todos os de cura pela magnetização espiritual, pela ação do fluido emanado do Espírito; que esse fluido embora etéreo, não é menos da matéria; que pela corrente que lhe imprime, o Espírito pode impregná-lo e saturar todas as moléculas da parte enferma; que pode modificar-lhe as propriedades, como o magnetizador modifica as da água, e lhe dá uma virtude curativa apropriada às necessidades; que a energia da corrente está em razão do número, da qualidade e da homogeneidade dos elementos que compõem a cadeia das pessoas chamadas a fornecer seu contingente fluídico. Essa corrente, provavelmente, ativa a secreção que deve produzir a soldadura dos ossos, e leva assim a uma cura mais pronta do que quando ela é entregue a si mesma.

Agora, a eletricidade e o calor desempenham um papel nesse fenômeno? Isto é tanto mais provável quanto o Espírito não cura por um milagre, mas por uma aplicação mais judiciosa das leis da Natureza, em razão de sua clarividência. Se, como a ciência é levada a admiti-lo, a eletricidade e o calor não são fluidos especiais, mas modificações ou propriedades de um fluido elementar universal, eles devem fazer parte dos elementos constitutivos do fluido perispiritual; sua ação, no caso presente, é, pois, implicitamente compreendida, absolutamente como quando se bebe vinho, bebe-se necessariamente a água e o álcool.

Revista Espírita Setembro 1865

OS FRUTOS DO ESPIRITISMO


OS FRUTOS DO ESPIRITISMO

Por Enrique Eliseo Baldovino


Homenagem ao Sesquicentenário de 
O Evangelho Segundo o Espiritismo, de 
Allan Kardec

Relendo o penúltimo artigo (8º) das páginas históricas da Revista Espírita de dezembro de 1864 (RE dez. 1864–VIII: Comunicação espírita – A propósito da Imitação do Evangelho [Bordéus, maio de 1864; Grupo de Saint-Jean – Médium: Sr. Rul.], páginas 395-397),(1) encontramos uma notável instrução ditada pelo Espírito de Verdade, que comentaremos a seguir, com letra cursiva e menor, transcrevendo a mensagem original e intercalando as nossas considerações, junto das lúcidas observações de Allan Kardec.

Comunicação Espírita

A PROPÓSITO DA IMITAÇÃO DO EVANGELHO

(Bordéus, maio de 1864; Grupo de S. João – Médium: Sr. Rul.)

“Um novo livro acaba de aparecer. É uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de boa vontade. Essa palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado em vossa Terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm a todos os pontos da Terra fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai suas vozes; elas são destinadas a mostrar-vos o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinamentos; os tempos preditos são chegados; todas as profecias serão cumpridas.

O contexto histórico desta profunda comunicação é o mês de maio de 1864, poucos dias depois do notável aparecimento do livro Imitation de L’Évangile selon le Spiritisme, de Allan Kardec, lançado em Paris em abril de 1864 (1ª edição),(2) cujas merecidas comemorações o Movimento Espírita nacional e internacional estão realizando, por ocasião do Sesquicentenário de O Evangelho segundo o Espiritismo (a 3ª edição, revista, corrigida e modificada é de 1866).(3) O Espírito de Verdade usa, de forma clara, uma linguagem eminentemente evangélica, recordando a passagem de Jesus, na Terra, há 18 séculos – contando desde a época da Codificação da Doutrina dos Espíritos –, e o próprio Espírito de Verdade cita, como o faz no Prefácio a L’Évangile selon le Spiritisme, que “os tempos são chegados”.

“Pelos frutos se conhece a árvore. Vede quais são os frutos do Espiritismo: casais onde a discórdia tinha substituído a harmonia voltaram à paz e à felicidade; homens que sucumbiam ao peso de suas aflições, despertados pelos acordes melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que seguiam por um caminho errado e, envergonhados de suas fraquezas, arrependeram-se e pediram ao Senhor a força para suportar suas provações.

O Espírito de Verdade volta a citar outro formoso ensino do Cristo: “Pelos frutos se conhece a árvore” (Mateus, 7:15-20). Os frutos opimos e saborosos da portentosa árvore do Espiritismo são as benesses que Ele espalha pelo mundo, Doutrina que continua salvando vidas através dos anos, explicando o porquê do sofrimento, identificando as causas das aflições, ensinando a perdoar, a amar sem esperar retribuição e norteando mentes e corações para o bem, cujas conquistas vivenciais devem-se sobremaneira ao elevado esclarecimento e consolo que a Doutrina Espírita proporciona à Humanidade, no seu aspecto filosófico, científico e religioso, e com as consequências ético-morais, educacionais, sociais etc., que decorrem do seu cerne doutrinário.

“Provas e expiações, eis a condição do homem na Terra. Expiação do passado, provas para fortalecê-lo contra a tentação; para desenvolver o Espírito pela atividade da luta; para habituá-lo a dominar a matéria e prepará-lo para os prazeres puros que o esperam no mundo dos Espíritos.

“Há muitas moradas na casa de meu Pai, disse-lhes Eu há dezoito séculos. Estas palavras, o Espiritismo veio torná-las compreensíveis. E vós, meus bem-amados, trabalhadores que suportais o calor do dia, que credes ter que vos lamentar da injustiça da sorte, bendizei vossos sofrimentos; agradecei a Deus, que vos dá meios de resgatar as dívidas do passado; orai, não com os lábios, mas com o coração melhorado, para vir ocupar melhor lugar na casa de meu Pai, porque os grandes serão humilhados, mas, como sabeis, os pequenos e os humildes serão exaltados.” Espírito de Verdade

Claramente, o próprio Espírito de Verdade se identifica de novo como sendo Jesus, ao citar mais um ensinamento evangélico (“Há muitas moradas na casa de meu Pai” [João, 14:2]), e asseverando sem rodeios: «disse-lhes Eu há dezoito séculos” (grifos nossos). No livro Missionários da Luz, ditado pelo Espírito André Luiz, através do médium Chico Xavier, o elevado Instrutor Alexandre, falando no Mundo Espiritual ante uma assembleia, acerca dos temas Mediunidade e fenômeno, expressou com profunda inspiração:

“(…) – Mediunidade – prosseguiu ele, arrebatando-nos os corações – constitui “meio de comunicação”, e o próprio Jesus nos afirma: “Eu sou a porta… se alguém entrar por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens”! Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor?(4) Ouvi-me, irmãos meus!… Se vos dispondes ao serviço divino, não há outro caminho senão Ele, que detém a infinita luz da verdade e a fonte inesgotável da vida! Não existe outra porta para a mediunidade celeste, para o acesso ao equilíbrio divino que anelais no recôndito santuário do coração! Somente através d’Ele, vivendo-lhe as sublimes lições, alcançareis a sagrada liberdade de entrar nos domínios da Espiritualidade e deles sair, conquistando o pão eterno que vos saciará a fome para sempre. Sem o Cristo, a mediunidade é simples “meio de comunicação” e nada mais, mera possibilidade de informação, como tantas outras, da qual poderão assenhorear-se também os interessados em perturbações, multiplicando presas infelizes. Lembrai-vos, contudo, de que a lei divina jamais endossou o cativeiro e nunca sancionou a escravidão! Esquecestes a palavra divina que pronunciou: “vós sois deuses”? (…) (Grifos nossos)

Observação de Allan Kardec

Agora é o próprio Codificador do Espiritismo quem comenta a comunicação do Espírito de Verdade na referida Revue Spirite, tecendo sensatas considerações em forma de Nota final, que também transcrevemos a seguir. Seus comentários magistrais fazem jus à notável frase-síntese que descreve o seu bom senso, frase muito conhecida em nosso meio: Jesus, a porta. Kardec, a chave.(5)

“Sabe-se que assumimos menos responsabilidade pelos nomes quando pertencem a seres mais elevados. Não garantimos mais essas assinaturas do que muitas outras, limitando-nos a entregar tal comunicação à apreciação de cada espírita esclarecido. Contudo, diremos que não é possível desconhecer nela a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de superfluidade. Se ela for comparada com as que foram inseridas na Imitação do Evangelho (Prefácio e cap. III: O Cristo Consolador), e que levam a mesma assinatura, posto obtidas por médiuns diferentes e em épocas diversas, nota-se entre elas uma analogia marcante de tom, de estilo e de pensamentos, que acusa uma origem única. De nossa parte, dizemos que pode ser do Espírito de Verdade, porque é digna dEle, ao passo que temos visto muitas assinadas por este nome venerado ou o de Jesus, cuja prolixidade, verbiagem, vulgaridade, por vezes mesmo a trivialidade das ideias, traem a origem apócrifa aos olhos dos menos clarividentes. Só uma fascinação completa pode explicar a cegueira dos que se deixam apanhar, se não também o orgulho de julgar-se infalível e intérprete privilegiado dos puros Espíritos, orgulho sempre punido, mais cedo ou mais tarde, pelas decepções, pelas mistificações ridículas e por desgraças reais nesta vida. À vista desses nomes venerados, o primeiro sentimento do médium modesto é o de dúvida, porque ele não se julga digno de tal favor.”

A prudência, a humildade e a sabedoria de Allan Kardec são realmente proverbiais. O Codificador compara esta comunicação da Revista Espírita às elevadíssimas mensagens do Espírito de Verdade que constam no citado Prefácio de Imitation de L’Évangile e no capítulo: Le Christ Consolateur, sendo que estas instruções são dignas da autoria do nome venerado de Jesus. Mas Kardec, na sua grande humildade, prefere “entregar tal comunicação à apreciação de cada espírita esclarecido”.

Jesus e o Espírito de Verdade

A mesma e clara identificação do Espírito de Verdade com o Cristo encontra-se também no cap. XXXI de O Livro dos Médiuns,(6) na dissertação IX, que possui uma oportuna e explicativa Nota de Kardec, após a profunda mensagem assinada por Jesus de Nazaré:

“(…) Venho, como outrora, aos filhos transviados de Israel; venho trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, tem que lembrar aos materialistas que acima deles reina a imutável verdade: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar a planta e que levanta as ondas. Revelei a Doutrina Divina; como o ceifeiro, atei em feixes o bem esparso na Humanidade e disse: Vinde a mim, vós todos que sofreis! (…) Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensino: instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgais o nada, vos clamam vozes: Irmãos! nada perece; Jesus-Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade”.

A mesma mensagem, com poucas variações, encontra-se em O Evangelho segundo o Espiritismo,(7) agora assinada pelo Espírito de Verdade (Paris, 1860).

O Consolador prometido

Por tudo isso, o lúcido Codificador cita no cap. VI: O Cristo Consolador, a promessa do Consolador prometido, feita outrora por Jesus e registrada no Evangelho de João, 14:15 a 17 e 26:

“Se me amais, guardai os meus mandamentos; e Eu rogarei a meu Pai e Ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque o não vê e absolutamente o não conhece. Mas quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós. Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito”.(8)

A Doutrina Espírita é Jesus de volta

O Espiritismo é, de forma incontestável, o Cristianismo redivivo, porque nos ensina a colocar em prática o Evangelho de Jesus, isto é, a imitá-lO (Imitation de L’Évangile), a emular o Cristo, ora revivido pelos elevados ensinos da Doutrina Espírita, que restaura a Sua palavra e os Seus exemplos, sendo que O Evangelho segundo o Espiritismo contém a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas circunstâncias da vida. A epígrafe do Codificador Allan Kardec é muito profunda, racional e belíssima, em todos os sentidos: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente à razão, em todas as épocas da Humanidade”.

Em boa hora saiu a lume a edição histórica de O Evangelho segundo o Espiritismo,(9) em comemoração aos 150 anos do lançamento dessa extraordinária Obra, com o selo da Editora FEB – Federação Espírita Brasileira, em parceria com as 27 Federativas Espíritas Estaduais, em cujo número encontra-se a nossa centenária FEP – Federação Espírita do Paraná.

É tanta a importância desse Livro, pela sua considerável influência sobre a vida prática das nações (que extraíram, extraem e extrairão dele instruções excelentes), que, durante a codificação de Imitation de L’Évangile selon le Spiritisme, Allan Kardec teve que se recolher à sua residência da Ville Ségur, conforme narra Obras Póstumas, sob o título: Imitação do Evangelho (Ségur, 9 de agosto de 1863; médium: Sr. d’A…).(10)Durante a confecção desta Obra, os Espíritos Superiores disseram a Kardec: “(…) Conta conosco e conta sobretudo com a grande alma do Mestre de todos nós, que te protege de modo muito particular. (…) Nossa ação, principalmente a do Espírito de Verdade, é constante ao teu derredor e tal que não a podes negar. (…)”

O Evangelho segundo o Espiritismo: o Livro da Esperança

No primeiro centenário (1964) do lançamento de L’Évangile selon le Spiritisme, o Espírito Emmanuel, pela psicografia do médium Francisco Cândido Xavier, escreveu, à época, um Prólogo comemorativo aos 100 anos da publicação de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, e intitulou esse proêmio duma forma comovedora: Livro da Esperança, o que deu também o nome ao mesmo livro.

Esse preâmbulo foi ditado por Emmanuel em Uberaba-MG, em 18 de abril de 1964, o qual registrou o seguinte no seu parágrafo final:

“É por isso, leitor amigo, que em nos associando aos teus anseios de sublimação, que se nos irmanam na mesma trilha de necessidade e confiança, diante do Primeiro Centenário de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, nós te rogamos permissão para nomear este livro despretensioso de servidor reconhecido, como sendo Livro da Esperança”.(11)

Obrigado, Senhor!

Finalmente, repitamos com Emmanuel,(12) parafraseando o exórdio do citado Livro da Esperança, mas agora referindo-nos às merecidas comemorações do Sesquicentenário de Luz de L’Évangile selon le Spiritisme, com profunda gratidão ao Cristo:

“Oh! Jesus! No luminoso centenário de “O Evangelho segundo o Espiritismo”, em vão tentamos articular, diante de Ti, a nossa gratidão jubilosa!… Permite, pois, agradeçamos em prece a Tua abnegação tutelar e, enlevados ante o Livro Sublime, que Te revive a presença entre nós, deixa que Te possamos repetir, humildes e reverentes: Obrigado, Senhor!…”

Referências bibliográficas:

(1) KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Tradução de Júlio Abreu Filho. Dezembro de 1864, pp. 395-397. EDICEL.
(2) ________. Imitation de L’Évangile selon le Spiritisme. 1re édition, com XXXVI-443 páginas. Paris, les éditeurs du Livre des Esprits (35, Quai des Augustins); Ledoyen, Dentu, Fréd. Henri, libraires, au Palais-Royal, et au bureau de la Revue Spirite. Imprimerie de P.-A. Bourdier et Cie (Paris, 30, rue Mazarine). Abril de 1864.
(3) ________. L’Évangile selon le Spiritisme. 3e édition, com XXXV-444 páginas. Paris, les éditeurs du Livre des Esprits; Dentu, Fréd. Henri, libraires, au Palais-Royal, et au bureau de la Revue Spirite, 59, rue et passage Sainte-Anne. Imprimerie de P.-A. Bourdier et Cie (Paris, 6, rue des Poitevins). 1866.
(4) XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz. Ditado pelo Espírito André Luiz. 13ª edição. Capítulo 9 (Mediunidade e fenômeno), p. 99. FEB, 1980.
(5) XAVIER, Francisco C. VIEIRA, Waldo. Opinião Espírita. Ditado pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 4ª edição. Cap. 2: O Mestre e o Apóstolo, p. 25. Uberaba-MG. Comunhão Espírita Cristã: CEC, 1973.
(6) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Cap. XXXI: Dissertações espíritas, número IX, com Nota de Kardec. 62ª edição, pp. 458-460. FEB, 1996.
(7) ________. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo VI: O Cristo Consolador, item 5 (Instruções dos Espíritos – Advento do Espírito de Verdade). Mensagem ditada pelo Espírito de Verdade em Paris, 1860, pp. 107-108. Edição histórica. FEB, 2013.
(8) ________. _____. Cap. VI: O Cristo Consolador, item 3 (Consolador prometido), pp. 105-106. Edição histórica. FEB, 2013.
(9) ________. _____. Edição histórica (200 mil exemplares), em comemoração aos 150 anos do lançamento de L’Évangile selon le Spiritisme. Tradução de Guillon Ribeiro. Com 410 páginas. Editora FEB, em parceria com as 27 Federações Espíritas Estaduais, 2013.
(10) ________. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Ségur, 9 de agosto de 1863 (Médium: Sr. d’A…) Imitação do Evangelho. 22ª edição, pp. 307-310. FEB, 1987.
(11) XAVIER, Francisco Cândido. Livro da Esperança. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 1ª edição. Prólogo: Livro da Esperança, p. 12. CEC, 1964.
(12) ________. _____. Pelo Espírito Emmanuel. 1ª edição. Obrigado, Senhor! Página 14. CEC, 1964.

Fonte;
MUNDO ESPÍRITA
FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ

BREVE HISTÓRICO SOBRE MAGNETISMO


http://espiritaespiritismoberg.blogspot.com.br


BREVE HISTÓRICO SOBRE MAGNETISMO

Adilton Pugliese

 Identificar as origens da terapia espírita conhecida como passes é realizar longa viagem aos tempos imemoriais, aos horizontes primitivos da pré-história, porquanto essa técnica de cura está presente em toda a história do homem. "Desde essa época remota, o homem e os animais já conviviam com o acidente e com a doença. Pesquisas destacam que os dinossauros eram afetados' por tumores na sua estrutura óssea; no homem do período paleolítico e da era neolítica há evidência de tuberculose da espinha e de crises epilépticas".

"Herculano Pires diz que o passe nasceu nas civilizações antigas, como um ritual das crenças primitivas. A agilidade das mãos sugeria a existência de poderes misteriosos, praticamente comprovados pelas ações cotidianas da fricção que acalmava a dor. As bênçãos foram as primeiras manifestações típicas dos passes. O selvagem não teorizava, mas experimentava, instintivamente, e aprendia a fazer e a desfazer as ações, com o poder das mãos".

No Antigo Testamento, em II Reis, encontramos a expectativa de Naamá: "pensava eu que ele sairia a ter comigo, por-se-ia de pé, invocaria o nome do Senhor seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra, e restauraria o leproso".

Na Caldéia e na Índia, os magos e brâmanes, respectivamente, curavam pela aplicação do olhar, estimulando a letargia e o sono. No Egito, no templo da deusa Isis, as multidões aí acorriam, procurando o alívio dos sofrimentos junto aos sacerdotes, que lhes aplicavam a imposição das mãos.

Dos egípcios, os gregos aprenderam a arte de curar. O historiador Heródoto destaca, em suas obras, os santuários que existiam nessa época para a realização das fricções magnéticas.

Em Roma, a saúde era recuperada através de operações magnéticas. Galeno, um dos pais da medicina moderna, devia sua experiência na supressão de certas doenças de seus pacientes à inspiração que recebia durante o sono. Hipócrates também vivenciou esses momentos transcendentais, bem como outros nomes famosos, como Avicena, Paracelso...

Baixos relevos descobertos na Caldéia e no Egito, apresentam sacerdotes e crentes em atitudes que sugerem a prática da hipnose nos templos antigos, com finalidades certamente terapêuticas.

"Com o passar dos tempos, curandeiros, bruxas, mágicos, faquires e, até mesmo, reis (Eduardo, O Confessor; Olavo, Santo Rei da Noruega e vários outros) utilizavam os toques reais".

Depreendemos, a partir desses breves registros, que a arte de curar através da influência magnética era prática normal desde os tempos antigos, sobretudo no tempo de Jesus, quando os seus seguidores exercitavam a técnica da cura fluídica através das mãos. Em o Novo Testamento vamos encontrar o momento histórico do próprio Mestre em ação: E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da lepra. "Os processos energéticos utilizados pelo Grande Mestre da Galiléia são ainda uma incógnita. O talita kume! ecoando através dos séculos, causa espanto e admiração. A uma ordem do Mestre, levanta-se a menina dada como morta, pranteada por parentes e amigos".

Todos esses fatos longínquos pertencem ao período anterior a Franz Anton Mesmer, nascido a 23.05.1733 em Weil, Áustria. Educado em colégio religioso, estudou Filosofia, Teologia, Direito e Medicina, dedicando-se também à Astrologia.

"No século XVIII, Mesmer, após estudar a cura mineral magnética do astrônomo jesuíta Maximiliano Hell, professor da Universidade de Viena, bem como os trabalhos de cura magnética de J.J. Gassner, divulgou uma série de técnicas relativas à utilização do magnetismo humano, instrumentalizado pela imposição das mãos. Tais estudos levaram-no a elaborar a sua tese de doutorado - De Planetarium Inflexu, em 1766 - de cujos princípios jamais se afastou. Mais tarde, assumiram destaque as experiências do Barão de Reichenbach e do Coronel Alberto de Rochas".

Mesmer admitia a existência de uma força magnética que se manifestava através da atuação de um "fluido universalmente distribuído, que se insinuava na substância dos nervos e dava, ao corpo humano, propriedades análogas ao do imã. Esse fluido, sob controle, poderia ser usado como finalidade terapêutica".

Grande foi a repercussão da Doutrina de Mesmer, desde a publicação, em 1779, das suas proposições: A memória sobre a descoberta do Magnetismo Animal, passando, em seguida, a ser alvo de hostilidades e, em face das surpreendentes experiências práticas de terapia, conseguindo curas consideráveis, na época vistas como maravilhosas, transformar-se em tema de discussões e estudos.

"Em breve, formaram-se dois campos: os que negavam obstinadamente todos os fatos, e os que, pelo contrário, admitiam-nos com fé cega, levada, algumas vezes até à exageração".

Enquanto a Faculdade de Medicina de Paris "proibia qualquer médico declarar-se partidário do Magnetismo Animal, sob pena de ser excluído do quadro dos doutores da época", um movimento favorável às idéias de Mesmer levava à formação das Sociedades Magnéticas, sob a denominação de Sociedades de Harmonia, que tinham por fim o tratamento das moléstias.

Em França, por toda a parte, curava-se pelo novo método. "Nunca, diria Du Potet, a medicina ordinária ofereceu ao público o exemplo de tantas garantias", em face dos relatórios confirmando as curas, que eram impressos e distribuídos em grande quantidade para esclarecimento do povo.

Como destacamos, o Magnetismo era tema principal de observação e estudos, sendo designadas Comissões para estudar a realidade das técnicas mesmerianas, atraindo a atenção de leigos e sábios. Em 1831, a Academia de Ciências de Paris, reestudando os fenômenos, reconhece os fluidos magnéticos como realidade científica. Em 1837, porém, retrata-se da decisão anterior, e nega a existência dos fluidos.


Deduz-se que essa atitude dos relatores teria sido provocada pela forma adotada pelos magnetizadores para tornar popular a novel Doutrina: explorando o que se chamou A Magia do Magnetismo, utilizando pacientes sonambúlicos, teatralizando a série de fenômenos que ocorriam durante as sessões, e as encenações ruidosas, que ficaram conhecidas como a Câmara das Crises ou O Inferno das Convulsões, tendo como destaque central a Tina de Mesmer - uma grande caixa redonda feita de carvalho, cheia de água, vidro moído e limalha de ferro, em torno da qual os doentes, em silêncio, davam-se as mãos, e apoiavam as hastes de ferro, que saiam pela tampa perfurada, sobre a parte do corpo que causava a dor. Todos eram rodeados por uma corda comprida que partia do reservatório, formando a corrente magnética.

Todo esse aparato, porém, não era apropriado para convencer os observadores do efeito eficaz e positivo das imposições e dos passes.

Ipso facto, as Comissões se inclinaram pela condenação do Magnetismo, considerando que as virtudes do tratamento ficavam ocultas, enquanto os processos empregados estimulavam desconfiança e descrédito.

Os seguidores de Mesmer, entretanto, continuaram a pesquisar e a experimentar.

"O Marquês de Puységur descobre, à custa de sugestões tranquilizadoras aos magnetizados; o estado sonambúlico do hipnotismo; seguem os seus passos Du Potet e Charles Lafontaine".

No sul da Alemanha, o padre Gassner leva os seus pacientes ao estado cataléptico, usando fórmulas e rituais, admitindo a influência espiritual.

Em 1841, um médico inglês, o Dr.James Braid, de Manchester, surpreendeu-se com a singularidade dos resultados produzidos pelo conhecido magnetizador Lafontaine, assistindo uma de suas sessões públicas, ao agir sobre os seus pacientes, fixando-lhes os olhos e segurando-lhes os polegares.

Braid, em seus trabalhos e escritos científicos, procurou explicar o estado psíquico especial, que era comum nos fenômenos ditos magnéticos, sonambúlicos e sugestivos. Em seus derradeiros trabalhos passou a admitir a hipótese de dois fenômenos de efeitos semelhantes: um hipnótico, normal, devido a causas conhecidas e um magnético, paranormal, a exemplo da visão a distância e a previsão do futuro.

Outros pesquisadores seguiram-no: Charcot, Janet, Myers, Ochorowicz, Binet, Alphonse Búe e outros.

Em 1875, Charles Richet, então ainda estudante, busca provar a autenticidade científica do estado hipnótico, que segundo ele, mais não era que um estado fisiológico normal, no qual a inteligência se encontrava, apenas, exaltada".

Antes, porém, em Paris, o Magnetismo também atrairá a atenção do pedagogo, homem de ciências, Professor Hippolyte Léon Denizard Rivail. Consoante o Prof. Canuto Abreu, em sua célebre obra O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária, Rivail integrava o grupo de pesquisadores formado pelo Barão Du Potet (1796-1881), adepto de Mesmer, editor do Journal du Magnétisme e dirigente da Sociedade Mesmeriana. À página 139 dessa elucidativa obra, depreende-se que o Prof. Rivail freqüentava, até 1850, sessões sonambúlicas, onde buscava solução para os casos de enfermidades a ele confiados, embora se considerasse modesto magnetizador.

Os vínculos, do futuro Codificador da Doutrina Espírita, com o Magnetismo, ficam evidenciados nas suas anotações intimas, constantes de Obras Póstumas, relatando a sua iniciação no Espiritismo, quando em 1854 interessa-se pelas informações que lhe são transmitidas pelo magnetizador Fortier, sobre as mesas girantes, que lhe diz: "parece que já não são somente as pessoas que se podem magnetizar"..., sentindo-se à vontade nesse diálogo com o então pedagogista Rivail. São dois magnetizadores, ou passistas, que se encontram e abordam questões do seu íntimo e imediato interesse.

Mais tarde, ao escrever a edição de março de 1858 da Revista Espírita, quase um ano após o lançamento de O Livro dos Espíritos em 18.04.1857, Kardec destacaria: " O Magnetismo preparou o caminho do Espiritismo(...). Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase às manifestações espíritas(...) sua conexão é tal que, por assim dizer, é impossível falar de um sem falar de outro". E conclui, no seu artigo: "Devíamos aos nossos leitores esta profissão de fé, que terminamos com uma justa homenagem aos homens de convicção que, enfrentando o ridículo, o sarcasmo e os dissabores, dedicaram-se corajosamente à defesa de uma causa tão humanitária

É o depoimento inconteste do valor e da profunda importância da terapia através dos passes, e, mais tarde, em 1868, ao escrever a quinta e última obra da Codificação, A Gênese, abordaria ele a "momentosa questão das curas através da ação fluídica", destacando que todas as curas desse gênero são variedades do Magnetismo, diferindo apenas pela potência e rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: é o fluido que desempenha o papel de agente terapêutico, e o efeito está subordinado à sua qualidade e circunstâncias especiais.

Os passes têm percorrido um longo caminho desde as origens da humanidade, como prática terapêutica eficiente, e, modernamente, estão inseridos no universo das chamadas Terapêuticas Espiritualistas.

Tem sido exitosa, em muitos casos, a sua aplicação no tratamento das perturbações mentais e de origem patológica. Praticado, estudado, observado sob variáveis nomenclaturas, a exemplo de magnoterapia, fluidoterapia, bioenergia, imposição das mãos, tratamento magnético, transfusão de energia-psi, o passe vem notabilizando a sua qualidade terapêutica, destacando-se seus desdobramentos em Passe Espiritual (energias dos Espíritos), Passe Magnético (energias do médium) e Passe Mediúnico (energias dos Espíritos e do médium), constituindo-se, na atualidade, em excelente terapia praticada largamente nas Instituições Espíritas.

Amparado por um suporte científico, graças, sobretudo, às experiências da Kirliangrafia ou efeito Kirlian, de que se têm ocupado investigadores da área da Parapsicologia, e às novas descobertas da Física no campo da energia, vem obtendo a aceitação e a prescrição de profissionais dos quadros da Medicina, sobretudo da psiquiátrica, confirmando a excelência do Espiritismo, que explica a etiologia das enfermidades mentais e oferece amplas possibilidades de cura desses distúrbios psíquicos, ampliando a ação terapêutica da Psicoterapia moderna.

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